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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Introdução à Filosofia: Mas Qual a Utilidade da Filosofia? - Parte 3

"O destino de nosso tempo está caracterizado pela racionalização e
 intelectualização e, acima de tudo, pelo desencantamento do mundo."

Sempre que procuramos querer saber o valor e a utilidade de alguma coisa em nossa vida é normal que olhemos para esta coisa tentando nos convencermos sobre o modo como a usamos em nosso dia-a-dia.  Ou seja, se estamos olhando para um sapato logo pensamos que ele é muito importante para nós porque ajudará a manter nossos pés secos, confortáveis, sem a aspereza do contato com o chão, por exemplo. O que queremos de um sapato é que tenha uma utilidade para a nossa vida e que ele atenda às nossas necessidades. Por isto que não deixamos de comprá-lo e utilizá-lo como um dos principais assessórios de nossa vida.
Este mesmo pensamento nós teremos para quase todas as coisas que estão à nossa volta. As roupas, a televisão, o computador, o relógio, o copo, os talheres do jantar, os livros, o celular, a geladeira, o sabonete, enfim, se algo apresenta uma potencialidade a nos satisfazer em nossas necessidades, dizemos que esta coisa tem um valor para a nossa vida e é útil.
Contudo, existem outras coisas no mundo que são úteis. Porém não estão no mundo para satisfazerem nossas necessidades diretas como o sapato , o relógio, ou o sabonete.
É o caso do conhecimento. Quando um cientista descobre maneiras diferentes de fazer em laboratório cheiros diversos aos que conhecemos, não reconhecemos a utilidade destes cheiros. Mas quando o perfumista faz maravilhosos perfumes, cremes e sabonetes que estarão nas nossas casas e vidas, passamos a reconhecer nestes produtos sua utilidade e a utilidade da ciência. Da mesma forma acontece com a pasta de dentes, com as sopas instantâneas, com os sucos de saquinhos, entre outros, que são consumidos por todos em larga escala.  
Então, quando estamos estudando matemática, física, química, geografia, língua portuguesa, inglês, entre outros, conseguimos perceber a utilidade destes conhecimentos para as nossas necessidades: a matemática na hora de fazermos compras e somarmos o valor dos produtos e o dinheiro que teremos para pagá-las; a física quando formos calcular a distância de um local ao outro e o tempo que gastaremos para percorrê-lo; a química quando ocorrer reações ao jogarmos água sobre o óleo quente na hora de fazermos o arroz; a geografia quando quisermos conhecer o espaço em que estamos situados; a língua portuguesa para entendermos um ao outro e para assistirmos televisão, ler um livro, ver jornais; o inglês para entendermos algumas palavras de filmes legendados.
Mas dentre todas estas utilidades dos conhecimentos qual seria a utilidade da Filosofia? E o que é a Filosofia?
O Filósofo grego Pitágoras (Séc. VI a.C.) disse certa vez que o filósofo (Philos = amante + Sophia = sabedoria) é o amante do saber e a Filosofia é a busca amorosa pelo saber.
Quanto à utilidade da Filosofia, a coisa fica um pouco mais complicada. Pois se colocarmos cinco filósofos e fizermos esta pergunta a eles, com certeza surgirão cinco respostas diferentes do que seja a utilidade da filosofia.
Contudo, entre todas as respostas possíveis para entendermos qual a utilidade da filosofia uma ecoará em todas as palavras dos filósofos: a filosofia é útil porque faz os seres humanos pensarem, conhecerem as palavras e se libertarem dos conceitos que os oprimem, as ideologias.
Portanto, como bem disse a Professora, Filósofa e Doutora em Filosofia da USP, Marilena Chauí:
Qual será, então , a utilidade da filosofia?

Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil;, se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da historia for útil;  se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se  dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa pratica que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes(CHAUÍ, 2004, P.24).

A Filosofia, portanto, tem muita importância e é muito útil para a nossa vida, uma vez que ela possibilitará ao seres humanos a aquisição de um novo olhar diante da realidade. A Filosofia permitirá que nós percebamos a utilidade de todas as coisas à nossa volta. Pois a Filosofia nos fará ter uma visão analítco-crítico-reflexiva sobre nós mesmos, sobre as coisas e sobre o mundo a nossa volta. 
Portanto, o que temos a fazer?
Analisar, investigar e refletir sobre todas as coisas e sobre o mundo, tendo atitudes filosóficas que nos façam olhar melhor e mais profundamente a realidade à nossa volta, tendo um olhar crítico diante da realidade.


Octavio Silvério de Souza Vieira Neto
Verão de 2009

domingo, 19 de setembro de 2010

Introdução à Filosofia: O Nascimento da Filosofia na Humanidade - Parte 2


Criança geopolítica observando o nascimento do homem novo (Salvador Dalí - 1943 - 45,5 cm X 50 cm)

A filosofia nasce do espanto”
Platão


       Desde a pré-história os seres humanos conseguiram criar condições especiais para que pudessem sobreviver diante da imensidão e instabilidade do mundo que estava à sua volta.
Aprimorando sua capacidade de raciocinar sobre suas necessidades de sobrevivência os seres humanos foram capazes de criar modos de consciência que pudessem minimizar os problemas existentes em suas condições de vida.
Foram três os modos de consciência dos homens primitivos: a consciência do trabalho, que lhes possibilitou aprimorar as técnicas de construção de ferramentas, de caça, de pesca, de construção e de plantação; a consciência comunitária, que lhes permitiu fixar-se em determinados locais, viver em agrupamentos humanos, fazer a distribuição de tarefas entre os moradores da comunidade e criar a hierarquia entre os que comandavam e os que eram comandados na comunidade; e por fim, a consciência simbolizadora que os fizeram pensar sobre os fenômenos que ocorriam à sua volta, explicá-los e conceituá-los, como o fogo, a chuva, o céu, as estrelas, as relações familiares, as hierarquias, as saudades e até a morte.    
É claro que todos nós sabemos que diante da natureza o ser humano percebe certa regularidade, uma determinada ordem natural: o sol nasce todos os dias, anoitece, chove em períodos determinados, entre outros. Mas quando somos surpreendidos por fenômenos gigantescos e devastadores vindos da natureza nos sentimos inferiores e em um mundo caótico, desordenado, indeterminado.
Foi, por exemplo, o que aconteceu quando um enorme “tsunami” invadiu a costa marítima da Ásia, em 2004, ou quando o excesso de chuvas e as enchentes catastróficas (inclusive de lama) invadiram cidades do Sul do Brasil, em dezembro de 2008. Neste momento o ser humano, de qualquer época histórica, se sente incapaz, impotente e pequeno demais diante do poder e grandeza da desordem da natureza.
Mas o que acontece com o ser humano quando está diante de tragédias que mudam a sua vida?
Certamente, restam-lhe duas opções: ou se agarram aos conhecimentos da tradição (o mito e a religião) para tentar justificar e confortar suas vidas diante da tragédia ocorrida; ou arrumam outra forma de investigar o que de fato aconteceu para causar tanto desespero humano. 
Agora, diante da calamidade, é que podemos perceber que todos os modos de consciência se expandiram no decorrer da história em função da necessidade de melhorar a existência humana: o progresso se ampliou com o aumento da técnica; as sociedades se diversificaram, cresceram e viraram grandes núcleos urbanos com pessoas se ajudando o tempo inteiro; e tudo isto só foi possível porque o homem passou a pensar melhor e cada vez mais.
Mas de todas as investigações e pensamentos dos seres humanos, a consciência simbolizadora foi a que mais se ampliou e foi ela que fez nascer a filosofia e a ciência. Pois, resolvendo assumir a segunda opção, o de pensar a realidade de forma diferenciada em relação à tradição, os gregos do século VII a. C. passaram a dar respostas diferenciadas aos fenômenos que ocorriam em suas cidades fazendo nascer duas novas modalidades de conhecimento na humanidade: a filosofia e a ciência.
É claro que os primeiros filósofos, chamados pré-socráticos (por viverem antes do filósofo Sócrates) ou físicos da natureza (por quererem descobrir o princípio que rege a natureza), não deixaram de acreditar nos mitos e deuses que sustentavam sua sociedade. Mas, agora, queriam dar uma explicação racional (com base no pensamento) para os fenômenos da natureza. 
Analisando e observando a natureza os gregos (pré-socráticos ou físicos da natureza (Séc. VI a.C.) puderam dar as mais diversificadas explicações sobre o princípio que ordenava a natureza à sua volta. Tempos depois outros gregos (período antropológico/socrático Séc. IV a.C.) discutiram e argumentaram sobre o princípio que fazia com que o homem, no convívio comunitário, vivesse com justiça. E anos mais tarde novos sábios (os pós-socráticos séc. III a. C.) pensaram sobre os sentimentos, desejos e ações individuais dos homens vivendo em um mundo grandioso, cosmopolita, diverso e caótico (o mundo helênico).
Mas o fato mais importante destes períodos da história humana é que o ser humano se descobriu como um ser pensante, um ser que podia investigar todas as coisas da realidade e lhes atribuir um conceito universal (que serve para todos os lugares) que fosse o produto de sua reflexão.
A cosmogonia (descrição que explica como do caos surge o cosmo [ordem natural], a partir da geração dos deuses, identificados às forças da natureza) será substituída pela cosmologia (as explicações rompem com o mito e a religião para demonstrar que o princípio (arché) que fundamenta as coisas no mundo não se encontra na ordem e no tempo mítico e religioso, mas no princípio teórico e racional do homem, o fundamento de todas as coisas), passando a ser a base do pensamento filosófico e científico da humanidade.
Pensar o nosso mundo hoje, só é possível porque os gregos o pensaram primeiro. A antropologia (estudo do homem), a ciência (estudo dos fenômenos), a astronomia (estudo do universo), a matemática (estudo da lógica dos números e cálculos), a geometria (estudo das formas), a física (estudo dos movimentos), a biologia (estudo das espécies), a filosofia (busca do saber), os esportes, o teatro, a retórica, a política, entre outros, são todos conhecimentos que os gregos estudaram e deixaram como herança intelectual para o nosso mundo. 
Não poderemos pensar o nosso mundo sem a contribuição que os gregos deixaram para nós. Pois pensá-lo assim seria pensar o mundo sem a 9ª sinfonia de Beethoven. O pensamento dos Gregos está para o nosso mundo assim como a televisão está para as nossas casas.

Octavio Silvério de Souza Vieira Neto
Verão de 2009

sábado, 18 de setembro de 2010

Introdução à Filosofia: E Antes da Filosofia?: mito, religião e constituição da realidade - Parte 1

“Durante o primeiro período de um homem, o perigo é não correr riscos”

Sören Kierkegaard

O Ser humano é uma figura interessante!

Nasce, começa a caminhar, leva os primeiros tombos, vira criança e começa a querer coisas, situações, colo. Fica adolescente (alguns diriam aborrecente) e, neste instante, começam-se os conflitos: primeiramente com os irmãos; logo em seguido passam aos pais; não suportando somente isto entram em crise consigo mesmos; e para finalizar se revoltam com a humanidade. Este processo de transformação o leva aos mais estranhos conflitos, angustias e posicionamentos: resolve virar punk, passa a agredir tudo e todos, se envolve em galeras, usa roupas estranhas, escuta músicas diferentes, se exclui do convívio da família, bebe o que vê pela frente, entre outras coisas proibidas. O Filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard (1813-1855) diria que os adolescentes vivem numa verdadeira embriaguês estética, onde tudo é uma espécie de vida aparente, distante das responsabilidades do mundo real.

Um dia este ser humano amadurece e, segundo Kierkegaard, pode escolher saltar para outra esfera da vida: escolher ser ético, constituir uma família, conquistar patrimônios como casas, carros, empresas, e equipamentos para o seu bem estar. Mas ele envelhece, adoece e, apesar de todas as suas conquistas, finalmente morre.

É inevitável este ciclo natural. Mas, acima de tudo, é provocador por nos fazer questionar sobre uma coisa muito importante em nossa vida: para que vivermos, nos estressarmos, nos angustiarmos, nos aborrecermos, comprarmos, ficarmos felizes, criarmos estilos de vida, entre outras coisas, se ao final morreremos? Na Filosofia perguntamos, Por que somos finitos?

Nesta breve história do ciclo evolutivo do ser humano e dos questionamentos que poderíamos fazer a seu respeito, um é muito interessante. É que ao longo da vida os homens e mulheres passam por um processo de aprimoramento (Kierkegaard diria angustiante) de seus modos de viver e de pensar sobre tudo que está à sua volta. Ou seja, o modo como pensamos e agimos é diferente em cada fase da nossa vida. Com isto os homens e mulheres, a cada instante de suas vidas, estão aprendendo para responderem seus questionamentos mais profundos; se relacionando com pessoas para entenderem o que é conviver; conhecendo as coisas e o mundo para compreenderem o porquê de tudo isto; e, fundamentalmente, vivendo para experimentarem por que é necessário conhecer e construir coisas, sofrer, ser feliz, amar, odiar, trabalhar e ao final morrer.

No decorrer de uma vida, portanto, o ser humano vive para tornar-se mais apto a pensar sobre tudo que está à sua volta: sobre ele mesmo, sobre as coisas e sobre o mundo. Mas há os momentos em que essa busca por respostas fez e faz com que os homens e as mulheres pensem sobre coisas mais profundas como: quem eu sou?; de onde eu vim?; para onde eu vou?.

Talvez seja este o ponto de revolta que observamos nos adolescentes e talvez seja a falta de respostas a estes questionamentos que os fazem viver na embriagues estética da vida aparente.

Mas o certo é que desde o início da humanidade o ser humano foi impulsionado a pensar a partir destes simples e profundos questionamentos. Sobre estas questões, os seres humanos criaram respostas fantásticas. Para responder quem somos foram criadas os mais variados conceitos e formas de existir para a vida humana e para a natureza: ser ordenado e desordenado, triste e feliz; feio e bonito; tranqüilo e estressado; ineficiente e eficiente; bom e ruim; e hoje, na moda, “antenado”, cibernético, noveleiro, politiqueiro, “filé”, entre outros. Para responder sobre a origem do ser humano, das coisas e do mundo foram criadas as mais variadas histórias que justificariam as suas existências: os mitos de origem do homem (Mito de Adão e Eva), da noite e dos males do mundo (Mito de Pandora), do fogo (Mito de Prometeu), entre outros. E, finalmente, tentando responder para onde vamos foram criados os mais variados seres e mundos que pudessem amenizar o sofrimento da vida e da inevitável finalidade do homem, a morte: surge, portanto, a religião, os diversos deuses e santos e a vida após a morte no paraíso.

Assim, os primeiros seres humanos puderam produzir uma infinidade de respostas aos seus questionamentos criando a cosmogonia (termo que abrange as diversas lendas e teorias sobre as origens do universo de acordo com as religiões, mitologias e ciências através da história); os mitos (que são uma narrativa tradicional com caráter explicativo e/ou simbólico, profundamente relacionado com uma dada cultura e/ou religião a fim de procurar explicar os principais acontecimentos da vida, os fenômenos naturais, as origens do mundo e do homem por meio de deuses, semideuses e heróis, criaturas sobrenaturais como uma primeira tentativa de explicar a realidade); e a religião (definida como um conjunto de crenças relacionadas com aquilo que parte da humanidade considera como sobrenatural, divino, sagrado e transcendental, bem como o conjunto de rituais e códigos morais que derivam dessas crenças).

Mas será que estas explicações satisfizeram as dúvidas e curiosidades da humanidade? Ou o homem ainda procuraria novas maneiras de investigar sobre as coisas que aconteciam à sua volta?

Não satisfeitos com as explicações de seus antepassados sobre as coisas e fenômenos existentes no mundo, os homens proporiam uma nova maneira de entenderem a realidade. Surge, então, a Filosofia, análise-crítico-reflexiva da realidade, e a Ciência, comprovação dos fenômenos da realidade, como novas formas de explicar os fenômenos do mundo.

Octavio Silvério de Souza Vieira Neto

Verão de 2009