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sábado, 23 de maio de 2009

A Formação Humana: para além da Bildung Moderna.

A compreensão do surgimento da Filosofia e seu desenvolvimento conceitual em Filosofia da Educação pode ser compreendido através da análise da Paidéia Grega Clássica e da Humanitas Moderna, geradoras de formas de consciência e do modelo de sujeito na modernidade.
A estruturação conceitual do cidadão grego, para viver na polis, e a fundamentação intelectual do sujeito moderno, para agir na sociedade capitalista, estruturará o ideário de racionalidade e a política pedagógica na modernidade que será o objeto de discussão e crítica na pós-modernidade. Em outras palavras, o sentido da formação ética da Grécia e da formação política (Bildung) do Iluminismo Moderno proporão a liberdade ao homem, escravizando-o ao sistema de valores da sociedade moderna.
Resulta disto, que a Paidéia Grega Clássica demarcará o estatuto do cidadão para viver na polis e a Humanitas Moderna demarcará o estatuto do sujeito moderno com suas formas de consciência (o eu, a pessoa, o cidadão, o sujeito epistemológico), o sujeito consciente de seus pensamentos e responsável por seus atos. Tais sentidos de formação instituirão a única maneira de o ser humano se situar no mundo adquirindo sua maioridade e tornando-se livres: aceitando as imposições institucionais, sociais e culturais de seu tempo conferidas pelo poder e saber engendrados pelas formas de consciência grega e moderna.
A Filosofia, portanto, como discurso racional para a formação do cidadão para a pólis grega e como fundadora do sujeito na sociedade moderna, ao buscar métodos seguros para a construção do conhecimento e certezas evidentes e indubitáveis para a instituição do saber, transformar-se-á em Filosofia da Educação e determinará os limites do pensar e da liberdade do ser humano. Pois, ao delimitar o que se pode pensar e de que maneira se pode agir para a constituição intelectual e cultural das sociedades humanas, a filosofia auxiliada pela pedagogia imporão, ao sujeito moderno, o pensado e as atitudes a serem tomadas para a construção da sociedade moderna em uma relação de Poder e Saber institucional.
A virada epistemológica será, portanto, a fundamentação teórica destes pressupostos na modernidade e a consolidação de propostas pedagógicas que dariam suporte ao surgimento do sujeito moderno para atuar na sociedade.
Assim, surgirão filosofias da educação e teorias educacionais que fundamentarão a Educação Tradicional e a Educação Republicana: a primeira fundamentada na filosofia de Descartes, que entendia a infância como um entrave para se atingir a verdade na razão pura propondo transformar a criança em um adulto em miniatura para atuar precocemente na sociedade; e a segunda fundamentada na filosofia de Rousseau, que entendia a infância como um estágio importante para se modelar o adulto que surgirá de uma criança que viveu uma infância majestosa e mediado pelo educador, fazendo a verdade brotar da sinceridade do coração e transformando a criança em um adulto apto para viver na sociedade.
Contudo, os pressupostos do sujeito moderno seriam abalados pensadores posteriores que colocariam em risco toda e qualquer certeza sobre a possibilidade de o sujeito moderno adquirir a maioridade. Pois a confiança na razão como única possibilidade de desvendar a realidade natural e humana através dos métodos de investigação filosófico-científico e a vontade de ser livre, não possibilitaram ao sujeito moderno ser consciente de seus pensamentos e responsável por seus atos.
Deste modo, o encantamento e a pretensão da subjetividade moderna diante do saber, proposta pelo iluminismo foi colocada em xeque-mate com o inevitável surgimento de novos posicionamentos intelectuais sobre o papel da Filosofia da Educação na construção de um saber pedagógico no mundo contemporâneo.
Nietzsche, demolindo os edifícios conceituais da sociedade ocidental indagará: por que sempre a verdade?; e os frankfurtianos (Adorno e Hokerheimer) indagarão: como pode ocorrer em sujeitos esclarecidos uma sujeição diante dos objetos de conhecimento.
Estas questões evidenciam que o sujeito moderno, livre e iluminado pelo saber da razão, tornar-se-ia refém de sua própria criação conceitual: tornar-se-ia objeto diante de um sujeito devastador, criação da própria subjetividade humana, a saber, o objeto de conhecimento conceituado e elevado a condição de certeza e evidência absoluta.
Neste contexto indaga-se sobre a problemática filosófico/pedagógica instituída pela Modernidade: Para que se transformar crianças em sujeitos modernos, conscientes de seus pensamentos e responsáveis de seus atos, uma vez que isto é impor uma dominação conceitual ao homem e mulher? Qual o papel da Pedagogia no processo de amadurecimento do homem e da mulher, uma vez que ela é a imposição ideológica de conceituações do espaço e tempo a que eles pertencem? Educa-se para a formação intelectual ou para a dominação sócio-cultural? Implementar racionalidade nos homens e mulheres é torná-los pessoas críticas ou sujeitos moldáveis pelo sistema? Como se configura a verdade, o saber humano nas sociedades ocidentais? Enfim, para que Educar?
Esta é a problemática discutida na hipermodernidade.
Não se têm respostas a estas questões, mas apenas novos posicionamentos intelectuais como os refletidos por Jacques Rancière em o Mestre Ignorante, que apontará para uma dialeticidade na construção dos saberes no processo de ensino e aprendizagem nas escolas ou a busca pela escola da paixão, como preconiza Gilles Lipovetsky.
Mas por certo a discussão não parará por aí. Pois, a busca por se descobrir as necessidades de se conhecer o próprio Conhecimento e a melhor maneira de estruturá-lo para formação ética, estética e política do cidadão contemporâneo, para que o mesmo viva comunicando-se, atualizando-se, dialogando, refletindo, criando e, sobretudo, emancipando-se das imposições ideológicas de seu tempo, fazendo prosperar a humanidade, é tarefa fundamental do próprio processo do filosófico do conhecer humano e, certamente, da edificação prática da Pedagogia nas sociedades.
Somente afeitos a uma reflexão analítico-crítico-reflexiva, a uma política pedagógica democrática e qualitativa e, fundamentalmente, prenhe de argumentações e discussões dialéticas fundamentais que tal os seres humanos da hipermodernidade farão progredir a história da humanidade.
Octavio Silvério de Souza Vieira Neto
Inverno de 2009

A Fomação e Expansão da Consciência Simbolizadora Humana

A formação da consciência humana passou por um processo de evolução gradual que situou o ser humano no patamar de racionalidade da atualidade. Pois, desde os idos primordiais, o ser humano estabelece um vínculo entre seu pensamento e a natureza do mundo, das coisas, dos outros à sua volta, e sobre si mesmo como um retorno a seu próprio pensar. Com isto, poder-se-á dizer que a consciência humana emergirá e se desenvolverá como estratégia da vida em favor de uma ação primaria para a sobrevivência.
Tal fato ocorrerá, porque os homens têm uma tendência espontânea para admirar, descobrir, conhecer, compreender e buscar as causas do mundo natural, as coisas objetivas, os outros nos campos de afetação e a si mesmo enquanto presentificação na natureza e na sociedade em que vive.
Nestes termos, Severino (1992, p. 20) dirá que "(...) a consciência humana se inaugura como impulso vital originário, como uma espécie diferenciada de instinto, sem rigidez de um puro mecanismo. E, nesse nível, a consciência faz corpo com o agir dos homens que assumem então um papel de sujeitos dessa ação, subjetividade até então puramente vivenciada, que não se dava conta de si mesma".
Portanto, neste processo de feitura da consciência e do dar-se conta de si mesmo, uma subjetividade relacionada com o mundo a sua volta, o homem desencadeará formas diversas de agir para sobreviver em seu contexto sócio-histórico cultural, reorganizando ou modificando os recursos naturais disponíveis em sua realidade. Ou seja, “essa capacidade é um dado novo, essa disponibilidade de um equipamento que lhes permite modificar, de acordo com uma intenção subjetivada, a ordem instrumental mecânica do mundo natural” (SEVERINO, 1992, p. 20).
No limiar deste processo o ser humano subjetivado irá promover três esferas da existência humana, a saber, a prática produtiva, criadora das condições técnicas do trabalho; a prática social, gerenciadora dos agrupamentos sociais; e a prática simbolizadora, geradora dos conceitos e valores do mundo, das coisas, dos outros e do si mesmo.
Contudo, no decorrer do exercício ativo de tais práticas humanas, umas esferas em relação às outras, adquirirão certa autonomia e independência, como se as mesmas tivessem finalidades próprias, uma vez que se utiliza de recursos específicos para as suas implementações.
Este é o caso da prática simbolizadora que se expandirá e se transformará, ao longo dos tempos, devido ao uso constante da subjetividade humana. Assim surgiram as explicações acerca do mundo, das coisas, dos outros e do si mesmo em bases mitológica, religiosa, científica, artística e fundamentalmente filosófica. A expansão da consciência simbolizadora, ocorrida através dos cilcos da história humana, passará de uma instância primordial em que a vida orgânica e instintiva realizará as curiosidades acerca da realidade para uma consciência vivencial, após para uma consciência representativa, em seguida para uma autoconsciência e, finalmente, aportando, em um estágio último, uma consciência crítico dialética, o que levará a dizer que: “(...) a atividade simbolizadora da consciência expressa a capacidade que o homem adquiriu, com esse equipamento, de substituir as coisas por um “substituto mental”, de tal forma que pode lidar com os objetos do mundo e respectivas relações num plano de reduplicação, os conteúdos mentais podendo ser trabalhados sem uma vinculação física aos objetos extramentais a que supostamente correspondem. Por exemplo, se vamos cortar um objeto, antes de corta-lo fisicamente, ”cortamos mentalmente” sua representação simbólica...”(SEVERINO, 1992, p. 35).

Bem, é com tal prática simbolizadora autônoma e independente que o homem gerará toda sorte de explicações acerca da realidade, a saber, o senso comum, o mito, a religião, a arte e a ciência, que ao lado da filosofia tentarão engendrar a realidade constitutiva do mundo natural, das coisas, dos outros e de si mesmo.
Dito desta forma, é que poder-se-á entender a relação existente entre a FILOSOFIA, o filme MATRIX, o filme PERFUME e o filme O MUNDO DE SOFIA.
Ora, se é próprio do homem uma prática simbolizadora,
também o é próprio a criação de realidades no mundo, sejam elas como as propostas no mundo da Matrix, ou as intencionadas por Jean Baptiste Grenauille, em Perfume, ou as de qualquer desejo subjetivo da alma humana como o vivido por Sofia Amundsen em O Mundo de Sofia. É com a prática simbolizadora que o homem pôde tentar satisfazer às perguntas fundamentais que inquietam a existência humana: quem sou?; de onde vim?; para onde vou? Tais questionamentos foram e são responsáveis por toda sorte de conhecimentos que os seres humanos são capazes. Essa é a história da filosofia, a história de seres humanos que se puseram a pensar e simbolizar a realidade da qual estão inseridos. Em uma palavra, o ser humano é o criador, gestor e ordenador da realidade que o circunda, seja ela sagrada ou profana, a partir de sua tendência à representatividade consciente da realidade.
Enfim, O mundo, as coisas, os outros, o si mesmo, as hierarquias, os poderes e os saberes são todos pensados e pensamentos da subjetividade humana. São conjeturas humanas. Aqui se pensa, aqui se cria!



Octavio Silvério de Souza Vieira Neto

Inverno de 2009

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Matrix: o despertar para um novo ser humano no mundo

O filme Matrix 1 apresenta-nos um mundo dominado por computadores autômatos e auto-gestores que, após longa disputa pelo domínio da Terra com os seus criadores, o homem do século xx, passam a dominar o ambiente terrestre e passam a produzir homens, a partir de tecnologia genética, para se tornarem baterias energéticas para o sistema cibernético de sustentação do mundo tecnológico das máquinas.
Com a guerra entre homens e máquinas, o primeiro propôs a “queima do céu”, poluindo-o e impregnando-o com uma camada espessa de poeira tóxica que impediria que o sol penetrasse por ela e alimentasse as máquinas, que se supunha terem sido criadas para absorver energia solar.
Após o domínio das máquinas sobre os homens, estes passam a ser bateria para sustentar um sistema cibernético das máquinas. O homem passa a ser um gerador de energia térmica que sustentaria a Matrix, um supercomputador que forjaria uma vida ideal para os pensamentos dos seres humanos que se tornaram bateria térmica.
A Matrix, portanto, é um sistema de controle dos desejos (desejos de se revoltarem contra o sistema), das atitudes, da vida dos seres humanos. Presos aos plugs de sustentação das baterias da Matrix, o homem, desde suas formação embrionária, ficaria impedido de ser autônomo, autômato e reflexivo para se tornar um ser inanimado, um suporte energético para a Matrix. O mundo do qual os seres humanos desfrutam no filme é um mundo ilusório gerado por um supercomputador da Matrix para que o homem leve uma vida benfazeja, ordenada, moralmente constituída, cientificamente comprovada e saborosamente feliz.
Neo (o protagonista do filme), um auxiliar de escritório de dia e um hacker à noite, será o escolhido para salvar a humanidade do domínio da Matrix. Auxiliado por Morfeu (que na mitologia grega era um deus que, após passar uma papoula vermelha sobre o homem, aparecia-lhe nos sonhos) aparece à Neo através do chat da internet, dizendo a ele que poderia responder-lhe a seu questionamento: o que é a Matrix?
Neo, ao questionar o que é a Matrix , irá nos remeter ao enfoque do filme e à proposta deste trabalho, a saber, porque existem momentos que paracemos estar sonhando acordado? Será que o mundo em que vivemos é real ou ilusório? Por que seguimos as regras, conceitos e mandamentos do sistema do qual estamos inseridos? Por que não podemos ser os mesmos e produzir nossa própria realidade?
Morfeu, acreditando que Neo é o escolhido, o dará a possibilidade de escolher entre viver no mundo ilusório (embasado em conceitos, comprovações científicas, verdades absolutas e paz perpétua) ou no mundo real (aquele que pela experiência sensível e vivida no mundo que nos cerca, poder-se-á ser reflexivo, criativo e atuante no mundo). Neo escolhe a pílula vermelha (como no mito de Morfeu) e entra na verdadeira realidade ( na nave Nabucodonossor em que se encontravam vários tripulantes, dentre eles a auxiliar direta do coronel Morfeu, a tenente Trinity; ver foto): o mundo real, um mundo caótico e destituído de valores de verdade conceituais, científicas absolutas em que o homem tem que produzir o dia-a-dia de sua existência.
É neste momento, que o filme será Trabalhado e interpretado no campo da Filosofia.
O que se pretende apresentar, ao discente do curso de Normal Superior, é que a filosofia procura despertar os alunos para a existência de dois mundo paralelos: um ilusório, promovido pelo posicionamento racionalista do ser humano; um mundo objetivado por conceitos e valores de verdade que fundamentam a rotina da vida humana nas sociedades; um sistema que impede o homem de refletir, desejar, transformar; um sistema de dominação promovido por uma cultura de massa que solapa qualquer possibilidade de criatividade humana. Outro real em que, a partir da experiência individual e coletiva, o ser humano reflete, deseja e transforma o mundo em que vive com suas ações criativas, éticas e políticas; um mundo em que os valores se transformam a cada nova reflexão-ação do ser humano na terra.
A filosofia despertará o ser humano (discente) do sono dogmático do sistema de valores que massificam os homens e mulheres nas sociedades contemporâneas.
Neo, levado a um oráculo (que, etimologicamente, pode ser entendido como a mensagem a ser recebida de uma divindade ou o mensageiro ao qual traz a mensagem dos deuses ao homem) no mundo ilusório da Matrix, receberá a seguinte mensagem: você não escolhido, para que sejas o escolhido terá que conhecer-te a ti mesmo e fazer um sacrifício. Escolher entre a sua vida e a de Morfeu.
Fica estabelecido, portanto, o elo de ligação entre o filme e a filosofia. Ora, desta mesma maneira, ao procurar pelo mais sábio dos sábios, Sócrates, no século V a.C., na Grécia Clássica, ao visitar o oráculo Pítia (ou Sibila) lerá no umbral do templo: Conheça-te a ti mesmo. Ora, Sócrates, além de conhecer-se a si mesmo, irá propor aos cidadão de sua cidade, Atenas, a filosofia como possibilidade de descoberta dos saberes individuais e criar novas possibilidades de valores conceituais para a fundamentação da realidade social de seu tempo. Tratando dos conceitos de virtude, coragem, justiça, entre outros, Sócrates proporá uma vida pelo saber para que se possa viver na felicidade.
O que se propõe com este trabalho, portanto, é que o discente, tomando contato com a filosofia, passe a se conhecer e a conhecer a constituição conceitual e pragmática do mundo em que vive; passe a entender o sistema de dominação ideológica do qual é constituída as sociedades, as instituições culturais e sociais e, sobremaneira, a instituição de ensino brasileira para que possa, a partir da reflexão do vários poderes de dominação social, situar-se no mundo como um agente transformador da realidade da qual está inserido. Tornando-se cônscio de seu poder transformador, o discente promoverá uma educação de qualidade e satisfatória às mudanças comportamentais dos seres humanos: transformar os seres humanos de agentes passivos e acéfalos dominados pelo sistema ideológico de seu tempo, em cidadãos reflexivos, éticos, esteticamente sensíveis e, sobretudo, politicamente atuantes nas sociedades em que vivem.
Neo, ao viver no mundo real, descobrirá o que é a Matrix (o sistema que nos oprime e nos seduz à docilidade) e tornar-se-á o escolhido transformando o mundo do qual está inserido. Percebendo-se como um ser de possibilidades no mundo, um ser humano autônomo, autêntico, autômato, apto a viver e enfrentar a desordem do mundo, promove-se em um novo posicionamento ético, estético e político e rompe com o sistema de dominação de seu tempo histórico (o tempo do filme). Foi tamanho o seu descobrir-se que despertou o amor da tenente Trinity (ver foto), um amor destinado ao futuro e selado com um grande beijo de salvação.
Neo, o salvador do mundo dominado pela Matrix, será o vigilante para que não se ocorra novas dominações sociais e sim novas alternativas de se viver criando, pensando e agindo no mundo social do qual se faz parte. E falando ao telefone com o telespectador dirá:

Eu sei que você está aí,
eu sinto você agora,
sei que está com medo.

Está com medo de nós,
está com medo das mudanças.

Não conheço o futuro,
eu não vim aqui dizer como isso vai acabar,
eu vim aqui dizer como vai começar.

Vou desligar este telefone,
e mostrar a essas pessoas o que não quer que elas vejam.

Vou mostrar a elas o mundo sem você [o sistema],
um mundo sem regras e controles, sem limites e fronteiras,
um mundo onde tudo é possível.

Para onde vamos daqui,
é uma escolha que deixo para você.

Octavio Silvério de Souza Vieira Neto Primavera 16/11/2006

Filosofia ,Verdade e Realidade : uma reflexão contemporânea

A decisão de ingressar na vida acadêmica é uma das escolhas mais importantes no tortuoso caminho de compreensão da realidade da qual fazemos parte. Este encontro com novas idéias, paradigmas e paradoxos, faz com que o Sujeito de Conhecimento se depare com disciplinas desconhecidas ao olhar dos homens e mulheres que vivem à margem do Conhecimento, nos confins da cotidianidade.
Dentre as várias disciplinas a que se toma contato, uma delas causa um misto de espanto e repudia nos primeiros contatos com o acadêmico: a Filosofia.
Esta disciplina carrega em si um estigma monstruoso em virtude da imprecisa metodologia e didática a ela implementada, por professores tradicionais em salas de aula nos cursos regulares do país, que a enxergam como simples transmissão de biografias e de idéias pensadas no passado, tornando-a desconexa e evasiva em relação à realidade da qual se encontra inserido o homem e a mulher contemporâneo.
A repudia aos ensinamentos milenares da Filosofia é imediata e pode sim ter motivação metodológica/pedagógica. Todavia, será no momento de contato e encontro com as novas idéias, os novos posicionamentos de vida dos pensadores antigos e atuais e as novas expectativas quanto ao futuro das sociedades humanas e do planeta terra, que promover-se á o início do mal estar existencial e intelectual diante da Filosofia: uma gama de questionamentos povoam os cérebros dos jovens acadêmicos, fazendo-os se chocarem com as novas idéias propostas de um mundo até então desconhecido, inesperado, impensado e avassaladoramente repudiado.
Ora, por que deixar minha vida tranqüila ser abalada por conhecimentos estranhos ao meu mundo de felicidades momentâneas, românticas e de meu pensar formado para servir ideologicamente ao sistema? Dirão alguns acadêmicos. Isso é loucura! Gritarão os exaltados. Eu não posso acreditar que o mundo possa ser constituído destas idéias! Anunciarão os céticos. E por fim os dogmatas afirmarão: o mundo sempre foi e sempre será da maneira que sempre conhecemos!
A Filosofia proporciona sempre questionamentos quando se faz presente no pensamento humano, principalmente por ela ser um produto próprio do pensar humano. Assim, por certo, alguma mente vigilante e atenta entre os acadêmicos, poderá se questionar e indagar da seguinte maneira: Ora, mas para que se estudar Filosofia?; O que tal Conhecimento poderá acrescer nas conquistas da minha vida cotidiana?; Por que imergir-se no mundo desconhecido das idéias alheias?; Qual a contribuição de tais pensamentos para a verdade e a realidade de nosso tempo?; E, por fim, qual utilidade deste Conhecimento que faz desmoronar nossas mais enraizadas crenças?
Neste momento, as ocupações técnicas da vida pós-moderna cotidiana são deixadas de lado, os valores que predestinaram a humanidade são suspensos, e por um instante o Sujeito de Conhecimento olha para trás, fazendo-se perguntas fundamentais acerca do próprio eu, das coisas, dos valores e do mundo que, normalmente, não faria.
Começa-se, assim, a grande viagem libertária ao mundo do Conhecimento.
Mas, o que é o Conhecimento? Quais são os atributos dos valores de verdades universais dos Conhecimentos?
Em linhas gerais, poder-se-ia dizer que o Conhecimento é o esforço do espírito humano para compreender a realidade, dando-lhe um sentido, uma significação, mediante o estabelecimento de nexos aptos a satisfazerem as exigências intrínsecas à sua subjetividade
[1].
Mas para se rumar na viagem do novo olhar sobre o conhecimento da realidade, tem-se que compreender o uso do étimo Filosofia (Philos + Sophia), usado pelo grego pré-socrático Pitágoras (Séc. VI a.C.), como a significando amor à sabedoria. Deste modo, etimologicamente, pode-se constatar que a filosofia não é puro logos (palavra, saber), pura razão: ela é a procura amorosa da verdade
[2]. Portanto, não cabe à Filosofia propor regras, resposta aos problemas da cotidianidade, tampouco aliviar a inquietação acadêmica em função de um saber novo. E sim promover uma busca analítico-critico-reflexiva constante acerca dos valores universais que fundamentam o ser, as coisas, os valores e o mundo. A esse respeito, nos diz Immanuel Kant (1724-1804): A função da Filosofia não é dar regras, mas analisar os juízos privados da razão comum.[3]
Neste sentido, a Filosofia , no século XXI, vem promover um mergulho fundamental sobre a realidade, a fim de que se possa ter um novo olhar analítico-critico-reflexivo acerca dos valores e das ações humanas que norteiam as instâncias de verdade da realidade, com a intenção de mantê-las como verdade absolutas ou refutá-las, para que a humanidade se transforme e o progresso, com novos valores de verdade, possa nortear e fundamentar a vida e a cultura das sociedades.
Posto isto, poder-se-á compreender que a critica aos valores universais promovida pela buscas incessantes da Filosofia acerca do Conhecimento do Conhecimento é muito importante para que não se permita, nos séculos vindouros, abusos de imposições de verdades absolutas, sejam elas políticas , econômicas, religiosas ou sócio-culturais, impostas por homens e mulheres que se dizem profetas dos tempos vindouros e autoritariamente manipulam a realidade com suas maquinas de imposições de verdades absolutas.
Os valores universais, na atualidade, não podem ser aceitos senão após passarem pelo crivo da análise-critico-reflexiva, próprio da Filosofia, que os aceitará ou os refutará sob a pena de suas substituições por valores que sejam condizentes à realidade da ação efetiva dos homens e mulheres deste tempo e do Conhecimento produzido pelo diálogo intelectual dos seres humanos hodiernos.
Portanto, a aceitação da Filosofia na vida cotidiana é uma questão de postura ética do ser diante dos valores do eu, das coisas e do mundo, formadores da vida. Em uma palavra, é a ação reflexiva e dialética do ser humano que promoverá a História e o Conhecimento das sociedades vindouras.
Ora, posto desta maneira, poder-se-á aliviar as angustias intelectuais dos acadêmicos, e clarear as questões fundamentais propostas pelo acadêmico vigilante e atento, apontando-se a utilidade da Filosofia para a vida cotidiana do ser humano, parafraseando a Professora/Doutora em Filosofia da USP, Marilena Chauí:
Qual será, então , a utilidade da filosofia?
Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for úti;, se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da historia for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa pratica que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.
[4]


Octavio Silvério de Souza Vieira Neto Na tarde de verão - 01/02/2007



_______________________________
[1] - SEVERINO, Antônio Joaquim. Filosofia. São Paulo; Cortez, 1992. Col. Magistério 2º grau. Série Formação Geral. P. 67.
[2] ARANHA , Maria Lucia de Arruda. Filosofando ; introdução à Filosofia. 3. ed. São Paulo; Moderna, 2003. P. 88.
[3] MAGEE, Bryan. Historia da Filosofia. Trad. Marcos Bagno. 3. ed. São Paulo: Loyola, 1999. P.8-9.
[4] CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2004. P. 24.

O Nome da Rosa: a aliança entre fé e razão no medievo ocidental

Estranhas e misteriosas mortes começam a ocorrer num mosteiro beneditino localizado no norte da Itália durante a baixa idade média, onde as vítimas aparecem sempre com os dedos e a língua pretos. O mosteiro guarda uma imensa biblioteca, onde poucos monges tem acesso a publicações sacras e profanas.
A chegada de um monge fransciscano, Wilhelm de Barskeville (Sean Conery) e seu noviço Adso de Melk (Chistian Slater) ao mosteriro, provocaria uma reviravolta sobre as suspeitas das mortes, que até então recaíam numa aura sagrada: profanações terrrenas no interior do mosteiro seriam a causa das mortes dos monges.
Dispondo de recursos sofisticados de investigação, como os instrumentos apresentados em cena, o astrolábio e o quadrante que eram utilizados pelos mouros e desconhecida da maioria dos cristãos, e afeito à lógica aristotélica, repudiada pelos monges beneditinos agostinianos em um momento em que os artífices da filosofia aristotélica era pouco ou totalmente desconsiderados, serão o indicativo de caminhos arrojados seguido pelo monge franciscano na investigação dos mistérios que assolavam aquela casa do Senhor.
Com uma perspicácia investigativa arrojada, Wilhelm de Barskeville sairá à caça de provas empíricas, na melhor interpretação de Sherlock Homes, personagem criado por Sir Conan Doyle, que baseava suas ponderações nos princípios aristotélicos e procurava o evidente em fatos obscuros e inexplicáveis, deixando o mote ao mundo: é elementar meu caro Wodison, que será explorado no filme pelo monge franciscano: é elementar meu caro Adso.
O filme, baseado no romance homônimo do escritor, professor e intelectual italiano Umberto Eco, se constitui em uma grande aula de história e filosofia. Pois além de apresentar uma representação fiel dos costumes, arquitetura e sociedade da época, enfoca com maestria a relação estabelecida entre a igreja católica e o saber secular: a relação entre fé e razão.
As perspectivas se abrem desde o princípio da trama, por estar, o telespectador, respirando os ares de um mosteiro encravado no alto de uma montanha, controlado por monges beneditinos e que receberá a visita de monges franciscanos para um concílio sobre a predestinação de Jesus e sua posse de bens materiais e de riquezas, tema este, próprio das argumentações franciscanas: Jesus era ou não dono das roupas que vestia, perguntariam os franciscanos ao representante do Papa, no filme. A atmosfera sombria da localidade, o aspecto doentio de muitos dos frades que aparecem no transcorrer da história, o tom escuro de muitas seqüências (efeito propositadamente trabalhado pelo diretor Jean-Jacques Annaud), a rejeição a conceitos considerados avançados pelas maiorias dos monges que circulam o mosteiro e a presença destacada da inquisição a partir da metade do filme, permite compreender o que foi a Idade Média dominada pelos valores da Igreja Católica.
Uma das maiores qualidades do filme está na reprodução de época, com a equipe de Annaud sendo assessorada pelo eminente historiador francês Jacques Lê Goff, o que confere ao filme maior credibilidade no que se refere à utilização do mesmo como recurso didático. O figurino, as locações (o filme foi feito num autêntico mosteiro medieval), a ambientação, as músicas, os objetos disponibilizados e mesmo a fotografia em tons lúgubres (escuros, dando-nos uma impressão de umidade nos locais de filmagens) se tornam referências para que possamos apresentar o domínio cristão no medievo.
A trama central gira em torno dos referidos assassinatos, atribuído pelos beneditinos às forças ocultas do mal, à ação demoníaca que teria dominado alguns dos monges daquela casa de Deus. É interessante ressaltar que conceitos como Deus e as forças do bem se confrontando com o diabo e o mal eram dominantes nesse período devido ao enorme poder da Igreja Católica (a grande força remanescente desde a época em que os romanos e seu grande império ruíram, ainda no longínquo século V); um dos maiores veículos de propagação dessa crença foram os trabalho do filósofo cristão Santo Agostinho (354–430 d.C.), em especial com a obra De Civitate Die, A cidade de Deus.
No período em que se passa a ação, a Igreja já passava por algumas dificuldades devido ao ressurgimento de cidades e rotas de comércio, além da concessão aos leigos para freqüentar as nascentes universidades (é dessa época um dos trabalhos que precederam o renascimento cultural e que são considerados basilares para as transformações que se operam na transição do mundo medieval para o moderno, ou seja, a obra clássica do italiano Dante Aliguieri, A Divina Comédia). O surgimento da Inquisição e a forma como essa instituição da Igreja foi se tornando cada vez mais dura na sua perseguição aos hereges comprova os receios por parte do mundo cristão.
É neste tocante que se sobressai Wilhelm de Barskeville por contrastar com a atribuição das forças do bem, do supra sensível, da crença beneditina, e se lançar numa investigação científica e policial em busca de provas, de evidências dos crimes (o que pode ser considerado como uma antecipação de posturas investigativas que passaram a ser adotadas no mundo moderno, quando do surgimento de correntes filosóficas e científicas apoiadas no empirismo e no racionalismo).
O confronto entre os franciscanos e os representantes da Inquisição, em destaque Bernardo Gui, coloca novamente frente a frente a questão maniqueísta, da luta entre o bem e o mal, apenas que interiorizados na Instituição que se considera, por excelência, a representação terrena dos dotes celestiais e da mensagem de bondade, da felicidade eterna aos homens.
Nestes termos, O Nome da Rosa, abre-se como material imprescindível para a análise, compreensão e contextualização da Filosofia e da Epistemologia, fortemente marcadas pelos princípios teológico-filosóficos da Igreja Católica medieval. Ademais aponta o princípio pedagógico de doutrinação do bem, imposto aos fiéis como único caminho de salvação do mundo dos homens em favor da felicidade eterna no mundo de Deus, como preconizara Agostinho. E, finalmente, aponta os novos caminhos abertos, nos últimos séculos do medievo, com a vinculação do pensamento Aristotélico à explicação ontológica da realidade dos entes, que será levado a termo por Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica, e mudará radicalmente o posicionamento intelectual do ocidente em favor da nova ordem intelectual na modernidade, a saber, o humanismo: o racionalismo e o cientificismo moderno.
Wilhelm de Barskeville, o monge fransciscano, será o representante intelectual renascentista, que com uma postura humanista científico-racional, conseguirá desvendar a verdade por detrás dos crimes cometidos no mosteiro provando a eficiência do novo método de investigação fundados nos pressupostos da lógica aristotélica de investigação da realidade, da multiplicidade, contrário ao da Inquisição embasado na tortura física e psicológica em favor da salvação humana. Wilhelm só não conseguirá salvar os livros raros do devastador incêndio da Biblioteca do Mosteiro.
Portanto, faz-se necessário no Curso de Filosofia e Educação I, de Normal Superior a apreciação deste drama policialesco inigualável do cinema, a fim de que se possa esclarecer e antever as questões que fundamentarão o Conhecimento (Filosofia, Filosofia da Educação e Pedagogia) na Modernidade.

Octavio Silvério de Souza Vieira Neto Primavera -16/11/2006

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Para Quem Quer Filosofar em Sala de Aula em Grande Estilo

Já era hora de os professores de Filosofia terem um material de qualidade sobre a História da Filosofia que o pudessem auxiliar nos meandros dos campos floridos dos saberes filosóficos em sala de aula. No último semestre de 2007 uma grande novidade chegou ao mercado barsileiro que melhorará em muito a experiência e o contato de educadores e educandos com a Filosofia: a minissérie norueguesa O Mundo de Sofia.

Adaptado do best-seller internacional de Jostein Gaarder, O Mundo de Sofia, que vendeu mais de 20 milhões de livros ao redor do mundo, sendo traduzido para mais de 40 idiomas, e lançado pelo selo Versátil, no Brasil, a minissérie apresenta a versão integral do livro em DVD duplo.

Às vésperas de completar 15 anos, Sofia Amundsen recebe mensagens anônimas com perguntas intrigantes, como "quem é você?" e "de onde vem o mundo?". A partir dessas mensagens, ela se torna aluna do misterioso Alberto Knox, que a acompanha em uma fascinante jornada pela história da Filosofia, de Sócrates até os dias de hoje, passando pela Idade Média, o Iluminismo, a Revolução Francesa e a Revolução Russa. Como o livro , a minissérie O Mundo de Sofia é uma introdução inteligente e instigante à História da Filosofia, recomendada a todos que têm paixão pelo conhecimento e agora, também, de muito valia para jovens educandos compreenderem, de forma agradável e visual, as grandes discussões filosóficas que engendrou a epistemologia no mundo ocidental.
Informações mais completas sobre o livro visite o site: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=5

O filme custa em média R$ 49,90.

Mas, também, se tem a opção de fazer o Download do filme no site: http//filosofiacomcafe.blogspot.com/2008/10/o-mundo-de-sofia.html


A Expansão da Consciência Humana na Tragetória de Jean-Baptiste Grenouille

O Filme perfume fora adaptado do best-seller O Perfume, de Patrick Süskind, após 15 anos de longa disputa de direitos autorais.
O filme é sobre uma sinistra história de assassinato no século 18, estrelado por Dustin Hoffman e Alan Rickman. Contudo a dinâmica do filme propõe uma intensa nuance de fatos sócio-históricos-culturais, científicos e filosóficos que predispões o telespctador mais atento a sentir o perfume dos campos floridos do saber de uma época.
A história de Jean-Baptiste Grenouille e sua busca tenebrosa pela fragrância perfeita fez de “Perfume" o romance alemão mais vendido em todo o mundo desde "Nada de Novo no Front", escrito por Erich Maria Remarque na década de 1920.
Mesmo depois de vender 15 milhões de exemplares do livro, Süskind, conhecido na Alemanha como recluso, se recusou a vender os direitos para o cinema. Consta que o autor queria que o filme fosse dirigido por Stanley Kubrick, que morreu em 1999, mas ele acabou vendendo os direitos a seu amigo Bernd Eichinger, que é o mais conhecido produtor cinematográfico da Alemanha.
Eichinger, cujos créditos incluem "O Nome da Rosa" e "A Queda", filme aclamado sobre os últimos dias na vida de Adolf Hitler, diz que assim que leu o livro, quando ele foi publicado, em 1985, sabia que queria filmá-lo, mas que Süskind rejeitou a idéia.
Ele se nega a dizer quanto pagou pelos direitos, mas o orçamento de 50 milhões de dólares faz de "O Perfume" o filme alemão mais caro da história.
Depois de décadas perdendo para o cinema francês, os cinéfilos alemães esperam que "O Perfume", que fará sua estréia em Munique na quinta-feira, supere os sucessos recentes do cinema alemão como "A Queda", "Adeus Lenin" e "Corra, Lola, Corra" para firmar o lugar do cinema alemão na paisagem cinematográfica mundial.

"Perfume" é a história sinistra de Grenouille, um solitário amoral nascido em 1738 num mercado de peixes parisiense e dotado de um olfato extraordinário.
Ele se torna perfumista, Dustin Hoffman faz o papel de seu mentor, e desenvolve a obsessão de criar o perfume perfeito.Para isso, Grenouille, representado pelo relativamente desconhecido Ben Whishaw, de 26 anos, assassina garotas bonitas para roubar seu cheiro. Sua vítima mais desejada é a filha de um mercador, representado por Alan Rickman.
- O maior desafio foi criar um herói que age calculadamente para realizar seus objetivos, mas que consegue conservar a simpatia do público, mesmo assim - disse o diretor Tom Tykwer, comparando o personagem principal a Hannibal Lecter, de "O Silêncio dos Inocentes".
O clímax acontece quando Grenouille faz com que centenas de milhares de pessoas que vieram assistir à sua execução entrem em transe com seu perfume - uma cena que, segundo alguns críticos, remete a um comício nazista.
- Essa foi a cena mais difícil - disse Tykwer, que também dirigiu "Corra, Lola, Corra".
- Como fazer para mostrar centenas de milhares de pessoas que odeiam esse homem e se reuniram para vê-lo ser executado de repente mudando de idéia?
É Nesta trama, de violência, sedução e poder que poderemos compreender os aspectos filosóficos do filme ao demosntrar um caminho percorrido pela evolução da consciência de um ser humano que tem uma mente doentia, apaixonada e cientificamente capaz de produzir um saber que seja capaz de dominar uma totalidade de pessoas.
Acompanhada por um processo evolutivo natural, a consciência de Grenouille, avança até o climax fazendo-a atingir um patamar dialético-crítico que o faz descobrir de que nada vale todo o seu conhecimento se para tê-lo teve que destruir (matar) a única coisa que amou profundamente: “O Perfume” da Jovem camponesa vendedora de frutas que por acidente foi morta em suas mãos.
O Perfume, é original, arrepiante, instigante e, fundalmente, banhado de um perfume inesquecível.

Octavio S. S. Vieira Neto
Inverno de 2008

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Da Estética Pós-moderna à Conceituação Hipermoderna: a era da hiperabundância socio-cultural e econômica na visão de Lipovetsky

Segundo o filósofo e professor da Universidade de Grenoble, na França, Gilles Lipovetsky, vive-se, hoje, a era da hipermodernidade.
O Mundo atual que se constituiu à volta dos seres humanos apresenta-se como um espaço e um tempo do hiperterrorismo, das hiperpotências, das hiperclasses, do hipertexto, da hiperinformação, do hipermercado, do hiperconsumo, do hipercapitalismo enfim, da hiperabundância de todas as coisas criadas pelo homem a partir da revolução epistemológica e científica da modernidade.
Contudo, apesar de se situar no núcleo deste frenesi do hipercapitalismo, os homens e mulheres hipermodernos encontram-se na mais profunda individualidade que a história jamais pode ver: situam-se em um vazio profundo de significações e significados que os fadam ao individualismo, à solidão e ao desespero do excesso. Como diz Lipovetsky, o homem hipermoderno está fragilizado pelo medo em uma era de exageros.
Afeitos a esta lógica da hiperabundância os indivíduos hipermodernos vêem-se bombardeados por uma infinidade de informações, serviços e objetos que os tornam ilimitados em seus desejos. A lógica do ter sobressai-se em relação à lógica do ser o que demarca a fragilidade de sua existência diante do mundo hipercapitalizado.
Ora, se na primeira modernidade, a partir do século XVIII, inventou-se o individualismo, a democracia e o mercado livre, nesta nova era da modernidade, se instituiu o hiperindividualismo e o hiperconsumo. Não mais o individualismo limitado pelas ideologias, pelas diferenças sexuais, pelo papel da igreja, pelo papel do estado na economia, mas, agora, um hiperindividualismo que imerso na sociedade de consumo torna-se ilimitado, com os indivíduos cada vez mais senhores de sua própria existência em todas as categorias da população: jovens, homossexuais, mulheres. Ou seja, o hiperindividualista é mais responsável pela sua própria existência. Ele tem menos proteção coletiva, das instituições. Ele está mais entregue a si mesmo, o que implica ter de se buscar a si e se auto-inventar. Ele passa a ser vítima da era dos exageros: do hiperconsumo. Por isto está mais frágil no hipercapitalismo.
Este fenômeno pode ser entendido com a invasão das novas tecnologias da informação no seio da família, da escola e das instituições organizadoras da sociedade. Pois os telefones celulares, os computadores, os nootbook’s, os aparelhos de CD/DVD, as televisões de plasma, a internet, os Ipod’s, os modems móveis G3 e toda sorte de tecnologias ressignificam o espaço e tempo dos indivíduos na atualidade. O contato dos hiperindivíduos com as novas tecnologias da informação promove o uso do tempo e espaço de forma diferenciada, sem padrões ou modelos a seguir. Qualquer pessoa pode tornar-se escritor, cineasta, crítico de cinema ou design com alguns cliques na internet. Ou seja, para que o hiperindivíduo tornar-se expert em alguma coisa depende de seu desejo em conhecer algo, do seu reinventar-se e de sua possibilidade criativa. Além deste efeito, as tecnologias da informação, permitem aos indivíduos fazerem uso de seu espaço e tempo de forma individualizada. Pois a internet, por exemplo, permite se estabelecer contatos com outros indivíduos, mundo afora, e no momento que se quiser.
Neste contexto, o hipermundo tornar-se-ia um espaço e tempo sem ideologias, sem fronteiras, sem regras, sem limites, uma sociedade do hiperconsumo e, talvez como alguns pessimistas diriam, uma sociedade caótica. Lipovetsky não concorda com os pessimistas e ratifica a hipermodernidade que (...) por toda parte há uma sociedade dos livres serviços que se acentuou (...) devido à sociedade de consumo e agora mais ainda pelas novas tecnologias. Sociedade esta que se moderniza a cada instante em função de sua inventividade e criatividade.
Ora diante deste hiperdindiviualismo da sociedade hipermoderna, sociedade esta sem limites, afeita ao frenisi das novas tecnologias e à impulsividade do consumo instantâneo de informações imediatistas, de coisas efêmeras e de momentos de pura individualidade solitária, qual seria a possibilidade educativa uma vez que educar exige regras, limites, valores e metanarrativas? Ou de outra forma, como poder-se-á educar em uma sociedade em que os valores das metanarrativas são substituídos por valores individualizados que satisfazem as exigências do consumo desenfreado, da efemeridade e da hiperabundância? Enfim, quais caminhos percorrer para a efetivação de uma educação democrática e de qualidade na hipermodernidade?
A este respeito Lipovetsky apontará um paradoxo diante do hiperindividualidade. Pois os homens e as mulheres, mesmo afeitos à liberdade hipermoderna continuam tendo um certo autolimite e um número de parceiros sexuais limitado. Isso é interessante. De um lado, parece que tudo é possível, tudo é permitido e não é bem assim. Apesar dos indivíduos estarem voltados para o imediatismo do presente com o consumo associado a uma ética da felicidade que bombardeia, de um lado, o hiperindivíduo com uma loucura gerada por liquidações, lançamentos, datas festivas e, em contraponto, uma obsessão pela saúde em um comportamento crescente de preocupação com o corpo, cuidados com a alimentação, priorizando produtos saudáveis e de qualidade, muitos hiperindivíduos se mantém em uma posição de moderação e uma espécie de reequilíbrio.
E aqui se tem o ponto arquimediano para que se possa entender qual o papel da educação na hipermodernidade. Ou seja, perceber um ponto de moderação e reequilíbrio da hiperindividualidade significa dizer que talvez não se deva reproduzir o modelo da manipulação da alienação proposto pelas tendências pedagógica liberais da primeira modernidade. Mas antes viver numa sociedade em que ainda há normas muito fortes, mas que não tem um impacto considerável na existência dos hiperindivíduos. Pois imersos na cultura dos excessos o hiperindivíduo carece de substancialidade, fundamentação e critérios para discernir de forma crítica o que a hipermodernidade lhe apresenta de forma avassaladora: o excesso de informações.
Como aponta Lipovetsky: O hiperindivíduo ainda tem crenças e se entusiasma com as coisas. Não com todas as coisas ao mesmo tempo. É um erro completo de diagnóstico dizer que não há senão a técnica e a busca da eficácia e da competitividade. Essa é uma leitura heidggeriana do mundo moderno. Creio que é uma leitura parcial, porque ela esquece que se no mundo moderno há esse aspecto da técnica e competitividade, há também os valores humanísticos e democráticos. Esses valores podem ser mais ou menos fortes em determinado momento, mas de forma alguma eles morreram. E repito, a partida está longe de estar acabada. (...) as regras éticas permitem, na verdade, jogar o jogo. Se você trapacear, não vai poder jogar por muito tempo. A ética no mundo dos negócios tornou-se um fator muito importante em escala global para que o sistema possa funcionar.
Portanto, Educar no mundo hipermoderno é lembrar que mesmo dentro da hiperabundância de saberes, valores, técnicas há sempre uma necessidade individual em relembrar o já dito, manter-se em determinados valores e experimentar toda sorte de técnicas que o ser humano é capaz. Ao invés de se moralizar a educação com valores de conduta e nivelamento, com posicionamentos intelectuais tradicionalmente aceitos por décadas passadas e, sobretudo, promover a profanação da técnica em favor de padrões ideológicos impostos por profetas da sociedade, tem-se que valorizar a informação, a diferença, a individualidade, a abundância, a ética, a técnica e toda sorte de possibilidades da hipermodernidade. Pois de um simples e corriqueiro objeto tecnológico presente em todos os lares, mundo afora, a televisão, pode-se escravizar com valores de condutas e ideologias dominantes. Mas também poder-se-á extrair deste equipamento informações importantes que farão os hierindivíduos tornarem-se mais críticos, reflexivos e criativos.
A escola que queremos é a escola que na hipermodernidade torne o ambiente escolar afeito do hipermundo que faz parte do hiperindivíduo. Esta escola tem que tornar-se um fenômeno de hiperconsumo bem como todas as informaçãoes que nela estiverem contidas e que a ele chegarem com os hiperindivíduos. A escola que queremos é a hiperescola. Como dirá Lipovetsky a escola da paixão em que o hiperindivíduo se torne o hiperprotagonista e o hiperator da reinvenção e recriação de um novo espaço e tempo na história humana. Pois educar é proporcionar à história da humanidade que haja novos atores históricos (...) em um universo aberto. E essa ordem aberta pode ter a forma de uma sociedade desigual, uma sociedade democrática, ética, e com muita vontade de reinventar, recriar e requalificar os hiperindivíduos.
Verão de 2009
Octavio Silvério de Souza Vieira Neto