Sempre que escutamos falar em filosofia a primeira coisa que vem à nossa cabeça é que isto é coisa de maluco: homens que ficaram a vida inteira pensando sobre coisas que ninguém sequer sonhava pensar.
Enquanto a maioria das pessoas pensa sobre coisas banais, (quem vai ganhar no “Big Brother Brasil”?; Qual o fuxico sobre a vizinha bonita?; como emagrecer em um dia?; qual o melhor celular para se “tirar uma onda”?; o que comprar sem necessidade?; entre outros) o filósofo, ao contrário, irá pensar e fazer perguntas fundamentais sobre estas mesmas coisas com a intenção de criar novas informações sobre elas e com a intenção de propor uma mudança na maneira como as enxergamos e perguntamos (qual a importância dos “Reality Show”?; o que é a beleza?; o que é ser saudável?; qual a importância da tecnologia na vida humana?; o que é a lógica de consumo?; por exemplo).
Portanto, o filósofo intenciona, incessantemente, produzir um olhar analítico, crítico e reflexivo sobre todos os fenômenos que fazem parte do dia-a-dia em nossa vida. Ele busca conhecer mais e melhor as coisas à sua volta com a intenção de demonstrar novas possibilidades de existência daquilo que todos acham comum, corriqueiro, normal.
Com este novo olhar do filósofo é que podemos dizer que produzimos uma teoria do conhecimento. Ou seja, a cada pensamento novo dos filósofos sobre as coisas da realidade foram sendo produzidos novos conhecimentos sobre o mundo: a astronomia, a matemática, a física, a história, a geografia, a medicina, a sociologia, a política, a religião, a arte, e, finalmente, a própria filosofia.
O que os Filósofos sempre fazem é tentar encontrar uma ordem conceitual na desordem do mundo ou aplicar ao mundo uma ordem conceitual. Dizendo de outra maneira, cabe à filosofia ordenar o mundo a partir de idéias, conceitos, e hipóteses para que todos possam viver melhores, em um mundo em movimento, em transformação e que, a cada instante, nos surpreende com o surgimento de coisas novas que não sabemos o que é. Assim nascem as explicações das coisas no mundo, para tentar tornar acessíveis e ordenadas as coisas e o mundo à nossa volta.
Mas será que no mundo em que vivemos somente o filósofo é capaz de pensar e produzir teorias de conhecimento que expliquem e ordenem as coisas e o mundo? Ou nós, simples mortais, também podemos pensar e olhar de maneira diferenciada para as coisas e o mundo, buscando conhecê-los e atribuir-lhes novas explicações e conceitos?
Ora todos nós nascemos filósofos: pensamos, analisamos, questionamos, criticamos. As condições da vida e da cultura nos fazem perder o gosto pelo questionamento.
Quando uma criança se coloca a questionar o mundo à sua volta e faz questionamentos aos pais perguntado o porquê disto?; o que é aquilo?; como fazer isto?; ela está exercitando o filósofo dentro de si. Mas os pais, na maioria das vezes, “matam” o filósofo que está nascendo na criança respondendo-lhe: porque não; não sei; ou simplesmente diz à criança parar deixar de ser chata. Ou seja, se a criança estava sobre o pêlo do coelho e quando ele andava no mundo ela o admirava, se espantava e se questionava, agora, com a falta de respostas dos pais ela está enfiada e encolhida dentro do pêlo do coelho. Por mais que ele ande no mundo de nada adiantará: a criança/filósofo nada verá, nada admirará, nada a espantará e nada questionará.
Platão (428/27 – 347 a. C.) e Aristóteles (384 – 322 a . C.) deram à filosofia uma de suas melhores definições. Eles viram a filosofia como um discurso admirado e/ou espantado com o mundo. O filósofo, portanto, é o sujeito que se espanta e se admira com o mundo à sua volta. Fazer a pergunta inocente da criança (o que é?) é estar na atitude filosófica, é pensar filosoficamente.
Assim, todos nós podemos voltar a deixar nascer o filósofo que está preso dentro de nós. Como a “lâmpada mágica de Aladim”, podemos nos polir e fazer sair de nós uma pessoa nova que olhe para o mundo e o admire, o questione e se espante com ele.
Desta maneira, poderemos todos nós, pensarmos, analisarmos, criticarmos, refletirmos sobre as coisas e o nosso mundo a fim de criarmos novas teorias de conhecimento.

Portanto, as coisas e o mundo só existirão no momento em que nos admirarmos e nos espantarmos com ele. Espantemo-nos com o mundo!
Octavio Silvério de Souza Vieira Neto
Verão de 2009