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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Da Estética Pós-moderna à Conceituação Hipermoderna: a era da hiperabundância socio-cultural e econômica na visão de Lipovetsky

Segundo o filósofo e professor da Universidade de Grenoble, na França, Gilles Lipovetsky, vive-se, hoje, a era da hipermodernidade.
O Mundo atual que se constituiu à volta dos seres humanos apresenta-se como um espaço e um tempo do hiperterrorismo, das hiperpotências, das hiperclasses, do hipertexto, da hiperinformação, do hipermercado, do hiperconsumo, do hipercapitalismo enfim, da hiperabundância de todas as coisas criadas pelo homem a partir da revolução epistemológica e científica da modernidade.
Contudo, apesar de se situar no núcleo deste frenesi do hipercapitalismo, os homens e mulheres hipermodernos encontram-se na mais profunda individualidade que a história jamais pode ver: situam-se em um vazio profundo de significações e significados que os fadam ao individualismo, à solidão e ao desespero do excesso. Como diz Lipovetsky, o homem hipermoderno está fragilizado pelo medo em uma era de exageros.
Afeitos a esta lógica da hiperabundância os indivíduos hipermodernos vêem-se bombardeados por uma infinidade de informações, serviços e objetos que os tornam ilimitados em seus desejos. A lógica do ter sobressai-se em relação à lógica do ser o que demarca a fragilidade de sua existência diante do mundo hipercapitalizado.
Ora, se na primeira modernidade, a partir do século XVIII, inventou-se o individualismo, a democracia e o mercado livre, nesta nova era da modernidade, se instituiu o hiperindividualismo e o hiperconsumo. Não mais o individualismo limitado pelas ideologias, pelas diferenças sexuais, pelo papel da igreja, pelo papel do estado na economia, mas, agora, um hiperindividualismo que imerso na sociedade de consumo torna-se ilimitado, com os indivíduos cada vez mais senhores de sua própria existência em todas as categorias da população: jovens, homossexuais, mulheres. Ou seja, o hiperindividualista é mais responsável pela sua própria existência. Ele tem menos proteção coletiva, das instituições. Ele está mais entregue a si mesmo, o que implica ter de se buscar a si e se auto-inventar. Ele passa a ser vítima da era dos exageros: do hiperconsumo. Por isto está mais frágil no hipercapitalismo.
Este fenômeno pode ser entendido com a invasão das novas tecnologias da informação no seio da família, da escola e das instituições organizadoras da sociedade. Pois os telefones celulares, os computadores, os nootbook’s, os aparelhos de CD/DVD, as televisões de plasma, a internet, os Ipod’s, os modems móveis G3 e toda sorte de tecnologias ressignificam o espaço e tempo dos indivíduos na atualidade. O contato dos hiperindivíduos com as novas tecnologias da informação promove o uso do tempo e espaço de forma diferenciada, sem padrões ou modelos a seguir. Qualquer pessoa pode tornar-se escritor, cineasta, crítico de cinema ou design com alguns cliques na internet. Ou seja, para que o hiperindivíduo tornar-se expert em alguma coisa depende de seu desejo em conhecer algo, do seu reinventar-se e de sua possibilidade criativa. Além deste efeito, as tecnologias da informação, permitem aos indivíduos fazerem uso de seu espaço e tempo de forma individualizada. Pois a internet, por exemplo, permite se estabelecer contatos com outros indivíduos, mundo afora, e no momento que se quiser.
Neste contexto, o hipermundo tornar-se-ia um espaço e tempo sem ideologias, sem fronteiras, sem regras, sem limites, uma sociedade do hiperconsumo e, talvez como alguns pessimistas diriam, uma sociedade caótica. Lipovetsky não concorda com os pessimistas e ratifica a hipermodernidade que (...) por toda parte há uma sociedade dos livres serviços que se acentuou (...) devido à sociedade de consumo e agora mais ainda pelas novas tecnologias. Sociedade esta que se moderniza a cada instante em função de sua inventividade e criatividade.
Ora diante deste hiperdindiviualismo da sociedade hipermoderna, sociedade esta sem limites, afeita ao frenisi das novas tecnologias e à impulsividade do consumo instantâneo de informações imediatistas, de coisas efêmeras e de momentos de pura individualidade solitária, qual seria a possibilidade educativa uma vez que educar exige regras, limites, valores e metanarrativas? Ou de outra forma, como poder-se-á educar em uma sociedade em que os valores das metanarrativas são substituídos por valores individualizados que satisfazem as exigências do consumo desenfreado, da efemeridade e da hiperabundância? Enfim, quais caminhos percorrer para a efetivação de uma educação democrática e de qualidade na hipermodernidade?
A este respeito Lipovetsky apontará um paradoxo diante do hiperindividualidade. Pois os homens e as mulheres, mesmo afeitos à liberdade hipermoderna continuam tendo um certo autolimite e um número de parceiros sexuais limitado. Isso é interessante. De um lado, parece que tudo é possível, tudo é permitido e não é bem assim. Apesar dos indivíduos estarem voltados para o imediatismo do presente com o consumo associado a uma ética da felicidade que bombardeia, de um lado, o hiperindivíduo com uma loucura gerada por liquidações, lançamentos, datas festivas e, em contraponto, uma obsessão pela saúde em um comportamento crescente de preocupação com o corpo, cuidados com a alimentação, priorizando produtos saudáveis e de qualidade, muitos hiperindivíduos se mantém em uma posição de moderação e uma espécie de reequilíbrio.
E aqui se tem o ponto arquimediano para que se possa entender qual o papel da educação na hipermodernidade. Ou seja, perceber um ponto de moderação e reequilíbrio da hiperindividualidade significa dizer que talvez não se deva reproduzir o modelo da manipulação da alienação proposto pelas tendências pedagógica liberais da primeira modernidade. Mas antes viver numa sociedade em que ainda há normas muito fortes, mas que não tem um impacto considerável na existência dos hiperindivíduos. Pois imersos na cultura dos excessos o hiperindivíduo carece de substancialidade, fundamentação e critérios para discernir de forma crítica o que a hipermodernidade lhe apresenta de forma avassaladora: o excesso de informações.
Como aponta Lipovetsky: O hiperindivíduo ainda tem crenças e se entusiasma com as coisas. Não com todas as coisas ao mesmo tempo. É um erro completo de diagnóstico dizer que não há senão a técnica e a busca da eficácia e da competitividade. Essa é uma leitura heidggeriana do mundo moderno. Creio que é uma leitura parcial, porque ela esquece que se no mundo moderno há esse aspecto da técnica e competitividade, há também os valores humanísticos e democráticos. Esses valores podem ser mais ou menos fortes em determinado momento, mas de forma alguma eles morreram. E repito, a partida está longe de estar acabada. (...) as regras éticas permitem, na verdade, jogar o jogo. Se você trapacear, não vai poder jogar por muito tempo. A ética no mundo dos negócios tornou-se um fator muito importante em escala global para que o sistema possa funcionar.
Portanto, Educar no mundo hipermoderno é lembrar que mesmo dentro da hiperabundância de saberes, valores, técnicas há sempre uma necessidade individual em relembrar o já dito, manter-se em determinados valores e experimentar toda sorte de técnicas que o ser humano é capaz. Ao invés de se moralizar a educação com valores de conduta e nivelamento, com posicionamentos intelectuais tradicionalmente aceitos por décadas passadas e, sobretudo, promover a profanação da técnica em favor de padrões ideológicos impostos por profetas da sociedade, tem-se que valorizar a informação, a diferença, a individualidade, a abundância, a ética, a técnica e toda sorte de possibilidades da hipermodernidade. Pois de um simples e corriqueiro objeto tecnológico presente em todos os lares, mundo afora, a televisão, pode-se escravizar com valores de condutas e ideologias dominantes. Mas também poder-se-á extrair deste equipamento informações importantes que farão os hierindivíduos tornarem-se mais críticos, reflexivos e criativos.
A escola que queremos é a escola que na hipermodernidade torne o ambiente escolar afeito do hipermundo que faz parte do hiperindivíduo. Esta escola tem que tornar-se um fenômeno de hiperconsumo bem como todas as informaçãoes que nela estiverem contidas e que a ele chegarem com os hiperindivíduos. A escola que queremos é a hiperescola. Como dirá Lipovetsky a escola da paixão em que o hiperindivíduo se torne o hiperprotagonista e o hiperator da reinvenção e recriação de um novo espaço e tempo na história humana. Pois educar é proporcionar à história da humanidade que haja novos atores históricos (...) em um universo aberto. E essa ordem aberta pode ter a forma de uma sociedade desigual, uma sociedade democrática, ética, e com muita vontade de reinventar, recriar e requalificar os hiperindivíduos.
Verão de 2009
Octavio Silvério de Souza Vieira Neto

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