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domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Nome da Rosa: a aliança entre fé e razão no medievo ocidental

Estranhas e misteriosas mortes começam a ocorrer num mosteiro beneditino localizado no norte da Itália durante a baixa idade média, onde as vítimas aparecem sempre com os dedos e a língua pretos. O mosteiro guarda uma imensa biblioteca, onde poucos monges tem acesso a publicações sacras e profanas.
A chegada de um monge fransciscano, Wilhelm de Barskeville (Sean Conery) e seu noviço Adso de Melk (Chistian Slater) ao mosteriro, provocaria uma reviravolta sobre as suspeitas das mortes, que até então recaíam numa aura sagrada: profanações terrrenas no interior do mosteiro seriam a causa das mortes dos monges.
Dispondo de recursos sofisticados de investigação, como os instrumentos apresentados em cena, o astrolábio e o quadrante que eram utilizados pelos mouros e desconhecida da maioria dos cristãos, e afeito à lógica aristotélica, repudiada pelos monges beneditinos agostinianos em um momento em que os artífices da filosofia aristotélica era pouco ou totalmente desconsiderados, serão o indicativo de caminhos arrojados seguido pelo monge franciscano na investigação dos mistérios que assolavam aquela casa do Senhor.
Com uma perspicácia investigativa arrojada, Wilhelm de Barskeville sairá à caça de provas empíricas, na melhor interpretação de Sherlock Homes, personagem criado por Sir Conan Doyle, que baseava suas ponderações nos princípios aristotélicos e procurava o evidente em fatos obscuros e inexplicáveis, deixando o mote ao mundo: é elementar meu caro Wodison, que será explorado no filme pelo monge franciscano: é elementar meu caro Adso.
O filme, baseado no romance homônimo do escritor, professor e intelectual italiano Umberto Eco, se constitui em uma grande aula de história e filosofia. Pois além de apresentar uma representação fiel dos costumes, arquitetura e sociedade da época, enfoca com maestria a relação estabelecida entre a igreja católica e o saber secular: a relação entre fé e razão.
As perspectivas se abrem desde o princípio da trama, por estar, o telespectador, respirando os ares de um mosteiro encravado no alto de uma montanha, controlado por monges beneditinos e que receberá a visita de monges franciscanos para um concílio sobre a predestinação de Jesus e sua posse de bens materiais e de riquezas, tema este, próprio das argumentações franciscanas: Jesus era ou não dono das roupas que vestia, perguntariam os franciscanos ao representante do Papa, no filme. A atmosfera sombria da localidade, o aspecto doentio de muitos dos frades que aparecem no transcorrer da história, o tom escuro de muitas seqüências (efeito propositadamente trabalhado pelo diretor Jean-Jacques Annaud), a rejeição a conceitos considerados avançados pelas maiorias dos monges que circulam o mosteiro e a presença destacada da inquisição a partir da metade do filme, permite compreender o que foi a Idade Média dominada pelos valores da Igreja Católica.
Uma das maiores qualidades do filme está na reprodução de época, com a equipe de Annaud sendo assessorada pelo eminente historiador francês Jacques Lê Goff, o que confere ao filme maior credibilidade no que se refere à utilização do mesmo como recurso didático. O figurino, as locações (o filme foi feito num autêntico mosteiro medieval), a ambientação, as músicas, os objetos disponibilizados e mesmo a fotografia em tons lúgubres (escuros, dando-nos uma impressão de umidade nos locais de filmagens) se tornam referências para que possamos apresentar o domínio cristão no medievo.
A trama central gira em torno dos referidos assassinatos, atribuído pelos beneditinos às forças ocultas do mal, à ação demoníaca que teria dominado alguns dos monges daquela casa de Deus. É interessante ressaltar que conceitos como Deus e as forças do bem se confrontando com o diabo e o mal eram dominantes nesse período devido ao enorme poder da Igreja Católica (a grande força remanescente desde a época em que os romanos e seu grande império ruíram, ainda no longínquo século V); um dos maiores veículos de propagação dessa crença foram os trabalho do filósofo cristão Santo Agostinho (354–430 d.C.), em especial com a obra De Civitate Die, A cidade de Deus.
No período em que se passa a ação, a Igreja já passava por algumas dificuldades devido ao ressurgimento de cidades e rotas de comércio, além da concessão aos leigos para freqüentar as nascentes universidades (é dessa época um dos trabalhos que precederam o renascimento cultural e que são considerados basilares para as transformações que se operam na transição do mundo medieval para o moderno, ou seja, a obra clássica do italiano Dante Aliguieri, A Divina Comédia). O surgimento da Inquisição e a forma como essa instituição da Igreja foi se tornando cada vez mais dura na sua perseguição aos hereges comprova os receios por parte do mundo cristão.
É neste tocante que se sobressai Wilhelm de Barskeville por contrastar com a atribuição das forças do bem, do supra sensível, da crença beneditina, e se lançar numa investigação científica e policial em busca de provas, de evidências dos crimes (o que pode ser considerado como uma antecipação de posturas investigativas que passaram a ser adotadas no mundo moderno, quando do surgimento de correntes filosóficas e científicas apoiadas no empirismo e no racionalismo).
O confronto entre os franciscanos e os representantes da Inquisição, em destaque Bernardo Gui, coloca novamente frente a frente a questão maniqueísta, da luta entre o bem e o mal, apenas que interiorizados na Instituição que se considera, por excelência, a representação terrena dos dotes celestiais e da mensagem de bondade, da felicidade eterna aos homens.
Nestes termos, O Nome da Rosa, abre-se como material imprescindível para a análise, compreensão e contextualização da Filosofia e da Epistemologia, fortemente marcadas pelos princípios teológico-filosóficos da Igreja Católica medieval. Ademais aponta o princípio pedagógico de doutrinação do bem, imposto aos fiéis como único caminho de salvação do mundo dos homens em favor da felicidade eterna no mundo de Deus, como preconizara Agostinho. E, finalmente, aponta os novos caminhos abertos, nos últimos séculos do medievo, com a vinculação do pensamento Aristotélico à explicação ontológica da realidade dos entes, que será levado a termo por Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica, e mudará radicalmente o posicionamento intelectual do ocidente em favor da nova ordem intelectual na modernidade, a saber, o humanismo: o racionalismo e o cientificismo moderno.
Wilhelm de Barskeville, o monge fransciscano, será o representante intelectual renascentista, que com uma postura humanista científico-racional, conseguirá desvendar a verdade por detrás dos crimes cometidos no mosteiro provando a eficiência do novo método de investigação fundados nos pressupostos da lógica aristotélica de investigação da realidade, da multiplicidade, contrário ao da Inquisição embasado na tortura física e psicológica em favor da salvação humana. Wilhelm só não conseguirá salvar os livros raros do devastador incêndio da Biblioteca do Mosteiro.
Portanto, faz-se necessário no Curso de Filosofia e Educação I, de Normal Superior a apreciação deste drama policialesco inigualável do cinema, a fim de que se possa esclarecer e antever as questões que fundamentarão o Conhecimento (Filosofia, Filosofia da Educação e Pedagogia) na Modernidade.

Octavio Silvério de Souza Vieira Neto Primavera -16/11/2006

Um comentário:

  1. Muito legal esse texto, me ajudou bastante. Obrigado.

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