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quarta-feira, 11 de abril de 2012

Conversas Sobre Filosofia e Educação Ano 2: Cultura, culturas e Educação (Discussões sobre Filosofia da Educação no Curso de Pedagogia a Distância da UAB/PPGE/UFJF em 2012) - 2º DIÁLOGO



Boa tarde pessoal,

Acompanhei nos últimos dias seus diálogos e pude perceber que ao longo da discussão vocês foram crescendo, interpretativamente, e foram trazendo questões importantes do texto, uma diferença perceptível quando lemos as primeiras mensagens do fórum que eram mais descritivas que reflexivas.

Mas vamos trazer à tona algumas informações que vocês apontaram sobre o texto para que possamos sistematizar um pouco mais nossas ideias.


Quase todos vocês perceberam que Alfredo Veiga-Neto faz uma distinção entre o conceito de Cultura (com letra maiúscula) elaborado pela cultura do século XVIII e a ideia que temos hoje de culturas (no plural).

Uma frase que foi interessante dita pela Lucimar é de que "todo país tem sua cultura e educação específica". Partindo desta concepção podermos entender melhor o que o autor está nos dizendo sobre a "Cultura e as culturas".

Se pensarmos nestas distinções, podermos perceber que a ideia de multiculturalidade percorre a vida humana desde suas origens: a diferenças entre o homem e a mulher e os seus gostos distintos, entre as nações e suas lideranças,  entre os costumes e normas dos povos humanos. Desde sempre a diferença cultural esteve presente na vida humana sem que, todavia, os seres humanos fossem capazes de entendê-la e respeitá-la como características culturais dos povos. Por isto, foram infindáveis as guerras, disputas religiosas e aniquilamentos sociais que renderam ao homem o título de "bárbaro". Basta que, para relembrar estes fatos, olhemos para traz a contemplarmos a história do humanidade. 

 Neste sentido, é que o homem europeu, um ser que se entendia como centro do universo e manipulador da natureza, entendeu que seria necessário resgatar o conceito de cultura que no grego significava cultivo e passara a tratá-lo como Kultur, que passaria a ser escrito com letra maiúscula e representaria toda a produção e contribuição  teórica, técnica e material que o homem civilizado criaria em prol da humanidade.

Surgiria, então uma epistemologia monocultural. Ou seja, uma cultura pensada como única e universal que serviria para  moldar a este princípio todos aqueles que se encontrassem em uma condição desfavorável em relação civilidade dominante: em "estado de natureza" (Hobbes).

Sair deste "estado de natureza" (estado em que os indivíduos vivem isolados e em luta permanente, vigorando a guerra de todos contra todos ou "o homem lobo do homem") seria estar de acordo com as normas do "contrato social", para se tornar "disciplinado, tornar-se culto, tornar-se prudente, e moralizado. 

Por isto, que há uma distinção entre alta e baixa cultura e a educação passaria a ser o lugar em que os homens "menos cultivados" passariam a ser modelados "com a cultura daqueles homens cultivados 'que já tinham chegado lá"" (Veiga-Neto), no ápice da "verdadeira cultura".

Na nossa história, em um período anterior ao que estamos protagonizando (séc. XVII), já havíamos sentido na pele este fato com o advento da imposição da cultura européia (eurocentrismo) aos nativos brasileiros: os índios selvagens que necessitariam de se tornarem civilizados.





E como bem disse a Anna Christina "três séculos se passaram e nem a Cultura e nem a Educação mudaram muito". Continuamos fazendo uma distinção entre alta e baixa cultura, entendendo que somente alguns conhecimentos são passíveis de seres transmitidos para as gerações futuras. 

Ora, é só olharmos para a escola de cunho tradicionalista, disciplinadora e moralista, que entenderemos que a transmissão de conteúdos é uma imposição unilateral de saberes universais sem nenhum tipo de contextualização com a realidade: o objetivo principal deste modelo de educação é o cuidado, a disciplina (como propora Kant) e a instrução conceitual para a ação cívica na sociedade, uma escola pedagogicamente tradicional e monocultural.

Mas e a realidade múltipla e diversa que há fora da escola, os desejos individuais, a contextualização com a  multiculturalidade, a criação, inovação e invenção dos novos saberes, as múltiplas informações e possibilidades de acesso e comunicação de tais saberes, enfim, e as múltiplas possibilidades de pensar e recriar a realidade, ficam fora da escola? 

Esta instrumentalização razão  na intenção de impor às gerações uma cultura monolítica foi desenvolvendo-se, como nos aponta o filósofo Adorno, em um fenômeno que conhecemos bem: a indústria cultural. Ou seja, o papel de dominação cultural (da alta cultura) passaria das mãos da escola para as mãos dos veículos de massa (rádio, cinema, televisão, computador) e ajudaria a escola a imprimir na mente das pessoas um modelo cultural elitista e autoritário.    

Com estas interrogações, vocês podem perceber que a questão das culturas é mesmo mais complicado do que parece ser.

Mas nem tudo está perdido! 

O Brasil, por exemplo, é um local em que, mesmo que se queira imprimir uma monocultura, a diferença está sempre presente. Talvez este seja o problema em nossas escolas, que afeitas a modelos pedagógicos tradicionais eivados de monoculturalismo, sofra com a questão da indisciplina, da discriminação, da exclusão... Ora, Não há alta ou baixa cultura, mas somente, culturas!

Vejam o vídeo: A Vida é Desafio - Racionais MC



 O mundo está mudando, a multiculturalidade está presente em nossa realidade e muitas escolas insistem em se manterem modernamente tradicionais: continuam impondo um modelo de cultura inadequado às condições sócio-históricas do nosso espaço e tempo. 

Não estou, com isto, afirmando que não temos que conhecer a cultura acumulada pela tradição. Ao contrário, temos que beber de suas fontes para compreendê-la e ressiginificar o nosso espaço e tempo, a realidade (como faz os racionais MC, por exemplo). Ou seja, a Cultura é importante para compreendermos nossas culturas, mas não para termos a primeira como modelo único e inabalável a ser  seguido, aceitado, cultuado, cultivado...

Entender que vivemos em meio às culturas é poder entender-se como ser humano que está em um processo dinâmico de "cultivo de si mesmo", como entendera o filósofo Foucault, por estar imerso, contextualizado a algo maior do que apenas um modelo solitário de cultura. 

Mais do que nunca, no mundo em rede e comunicacional em que vivemos, em função das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), somos seres multiculturais.

Separei dois vídeos que nos darão mais pistas sobre o que acabei de enunciar:

Cultura do ponto de vista Antropológico: da natureza à cultura




Cultura y Naturaleza por Edgar Morin





O que acharam desta reflexão? O que vocês poderiam dizer a partir destes apontamentos? Qual a melhor maneira de educar, na monocultura ou na multiculturalidade?

Abçs.

Referência 

Veiga-Neto: Alfredo. Cultura, culturas e Educação. Disponível em: www.scielo.br/pdf/rbedu/n23/n23a01. Acesso em: 11 abr. 2012.

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